OUTONO OUTRA VEZ
Nasci no outono. Esta é a razão por que conto minha idade pelos outonos vividos e não pelas primaveras, como a maioria das pessoas. Não é pessimismo. Nem assim deveria ser interpretado já que o outono é uma estação lindíssima.
É freqüente (desculpem. Meu computador não se conforma com a perda do trema. Eu também não) a associação entre as estações do ano e o decorrer da vida de cada um. Nesse sentido, a primavera corresponde à infância e à adolescência quando, de fato, as pessoas desabrocham para a vida. Não estão prontas ainda. São como pequenos botões prestes a se abrir em flor. Prosseguindo o raciocínio, o verão corresponde à idade adulta quando tudo é demais. O calor é demais; a intensidade da chuva é demais; a alegria é demais; o trabalho é demais; a paixão é demais.
Perceberam a pausa antes do outono? Até mudei o parágrafo. E não o fiz apenas porque o anterior estava ficando muito longo. O verão nos atordoa tanto que custamos a nos dar conta de que ele acabou. Por fim, percebemos aos poucos. Já não faz tanto calor. As folhas das árvores começam a cair. Uma paisagem dourada se estabelece por conta da tonalidade das folhas. Robert Frost, conhecido poeta americano tem um poema em que afirma “nada que é dourado se prolonga”. Também Verlaine se manifestou sobre a beleza e a efemeridade do outono. Não é que seja mais curto literalmente. Prolonga-se por três meses, como os outros. Entretanto, só o percebemos como estágio de vida quando já se aproxima a próxima estação. E sobre esta falaremos em seguida.
E chega o inverno. E com ele o frio. Dependendo da posição geográfica, também a neve. Não chegamos a tanto por aqui. Imaginamos o inverno como uma paisagem branca como a que vemos em cartões natalinos, embora para nós, seres tropicais, o natal ocorra no verão. É a época de nos agasalharmos e, com ou sem lareira, dispendermos um bom tempo a olhar para trás relembrando bons momentos vividos na primavera e no verão. Até mesmo o outono teve seus encantos. O branco do inverno também é belo. Como o branco que se apresenta em nossos cabelos e que muitas pessoas, principalmente mulheres, insistem em esconder por baixo de tintas e colorações diversas como uma negação ao tempo vivido. Como se tal coisa fosse possível.
Pois toda essa introdução pretensamente poética (ao menos, lírica) foi para comunicar a quem interessar possa, que só agora, com a chegada do outono deste ano corrente, dei-me conta de que para mim a dourada estação já na segunda metade está (a construção da frase lembrou-me Mestre Yoda. Por que será?). Percebi que me restam poucas folhas a cair e que o amarelo (ou dourado, se preferirem) já se espalha a minha volta com todo o seu esplendor e beleza. Ora! É preciso aproveitar essa paisagem bonita. E depressa. Antes que seja substituída pelo branco hibernal. Que tranqüilidade nos trás o outono! Que maneira sensível e deliciosa de sentir a vida, sem as ingenuidades da primavera e sem os arroubos do verão!
As estações do ano, assim como os dias e as noites, se sucedem indefinidamente. Deste modo, é certo que, terminado o inverno, este será seguido por nova primavera. Será assim também em nossa evolução? Haverá a chance de outra primavera em um novo ano a se iniciar de alguma outra forma desconhecida? Há quem acredite nisso e é possível que a vida seja a repetição de um mesmo princípio em tudo o mais. Porém, ainda que seja verdadeira a possibilidade/esperança de que o ciclo se repita, a verdade que posso comprovar é que não poderei saborear outro outono com a mesma consciência que possuo neste. Motivo bastante para que me abandone ao sabor deste. Quero deliciar-me a caminhar pelos campos dourados, descobrindo segredos de galhos que se mostram nus, descobertos pela queda das folhas que os recobriam. E apreciar a temperatura amena que não é mais atordoante como o calor que sentia no verão, mas que ainda não é o frio que provavelmente sentirei no inverno, se a ele chegar. Enfim, acabo de descobrir a beleza do outono e a paz que com ele vem. Maravilhosa estação dourada!
Rio das Ostras, 27 de março de 2011.
