Podem ser assim:
ou assim:
(assim também é muuuuuuito bom)
Houve um tempo em que sonhar significava sempre ter pesadelos horríveis que me faziam acordar todos na casa com meus gritos. Meu inconsciente era mesmo povoado de sombras que transformavam minhas horas de sono em algo temível. O Dr. Freud certamente saberia explicar porque aranhas estavam quase sempre presentes nos meus sonhos. Havia também aquela sensação de estar acordada e consciente, porém, sem conseguir me mexer e ter a certeza de que morreria se não pudesse sair da letargia. Isso se prolongava até que pudesse gritar para que alguém me chamasse, me sacudisse, me fizesse despertar.
Felizmente, isso não tem ocorrido ultimamente. Creio que fiz as pazes comigo mesma e o meu inconsciente já não me apavora tanto. Atualmente, sonho muito com meus filhos. Interessante é que sonho com eles como crianças adoráveis que foram e não como os adultos que são agora. Talvez seja saudade do tempo em que estavam sempre ao meu redor. Hoje eles continuam fazendo parte de mim mas eu já não faço parte deles. Por isso recorro aos sonhos, onde posso tê-los o mais próximo possível sem ter que dividi-los com noras, genros, netos, amigos, sei lá. O que sei é que meus filhos são presença constante nos meus sonhos.
Mas falemos de sonhos de modo genérico. Não quero discorrer sobre particularidades.
Vejam a seguinte imagem:
É a apresentação do filme "DREAMS" de Akira Kurosawa. É, na minha opinião, a obra prima de um grande artista. Considero-o o Shakespeare da sétima arte. O filme é composto por oito episódios nos quais são mostrados através de uma simbologia fantasiosa, exatamente como ocorre em nossos sonhos, os traumas e temores da espécie humana acumulados ao longo da história, porém bastante atuais. S
ão 8 episódios em que sempre começam com os dizeres em japonês: ”konna yume wo mita” (vi um sonho assim), que mostra um Kurosawa questionando as grandes preocupações da psique humana que nos atormentam.
Esta é a imagem correspondente ao primeiro episódio, se não me engano. O "casamento da raposa" está relacionado ao medo que nos foi incutido através da culpa por algo que não deveria ter sido feito, cuja punição nos assusta continuamente. Na cultura ocidental cristã este sentimento está representado pelo mito do pecado original. Pecamos ao comer a maçã e sofremos agora as consequências. O filme representa isso na lenda de que o ritual de acasalamento das raposas em dias de sol e chuva seria proibido aos nossos olhos e o menino assiste à cena proibida, devendo pagar sua ousadia com a morte.
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Outra cena; outro episódio: "O TÚNEL" Ali o sonhador tem que enfrentar sua culpa pessoal aceitando a responsabilidade por seus atos. Interessante observar o efeito sonoro dos passos dentro do túnel. Kurosawa é um gênio!
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Outro episódio digno de comentário é "A NEVASCA" . Quem viu o filme lembra que nestas cenas chegamos mesmo a sentir frio, tal é a força das imagens. O som da respiração difícil contribui para vivenciarmos a situação. Aqui a ideia da morte é apresentada não com horror, mas com fascínio. Lindo!
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A cena acima se refere à angústia que vivenciamos por conviver com os riscos que nós próprios, como seres "inteligentes" criamos. O perigo nuclear. Claro, não pensamos nisso durante a maior parte do tempo, mas a angústia e o medo estão presentes em nosso inconsciente coletivo.
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Este é o "POVOADO DOS MOINHOS" que finaliza o filme "SONHOS". Kurosawa nos faz ver o ridículo da nossa civilização consumista. O quanto são inúteis as nossas "necessidades". Ali podemos ver uma vida alternativa saudável e feliz que já não está mais ao nosso alcance porque nos habituamos a valores que não correspondem às nossas necessidades.
Agora deixemos o grande cineasta japonês de lado e voltemos a falar de sonhos genericamente. Tomemos a imagem a seguir:
Que tal a caravana? Sentiram o ambiente? Não vou descrevê-lo. Observem a imagem. Guardem-na bem no fundo da retina. Deixem que ela se instale no inconsciente e esperem a noite para sonhar. O resultado poderá resultar em uma bela crônica.
E o que dizer dos pesadelos? Não gosto desta palavra. Não é esnobismo, não, mas prefiro a palavra francesa cauchemar. Pesadelo não é uma palavra bonita e soa mal. É uma palavra incômoda mesmo. Mas existem muitas palavras em português que eu adoro. Lágrima, por exemplo, é uma palavra que eu amo, embroa não goste de chorar. Mas passemos às imagens.
Eugène Thivier (1845-1920) Le cauchemar, marbre blanc. Musée des Augustins, Toulouse, France
Bem sugestivo o pesadelo acima, não é?
E vejam mais este:
E mais este:
As duas últimas imagens se referem à lenda cujos personagens diabólicos são Sucubus e Incubus. São entidades que se aproximam das pessoas durante o sono, deitam junto e sugam a energia vital daquele que está dormindo. Será que as palavras "sucumbência" e "incumbência" vem daí? Quem sabe? Vale a pena dar uma olhada no google e pesquisar mais sobre esses estranhos personagens mitológicos.
Por fim, creio que uma bonita forma de encerrar o tema, seria um bonito trecho da literatura clássica sobre o tema. Aí vai:
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem diga nem todas, só as de verão.
Mas no fundo isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si, são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.
"Sonhos de Uma noite de Verão"
William Shakespeare